
Desculpe o clichê, mas Porto Alegre é demais (embora o súper que costumava usar essa tradicional musiquinha como trilha não esteja tão bom assim)! É bem verdade que seria possível ficar um dia inteiro enumerando pequenas (ou mesmo grandes, vá lá) desvantagens de se morar aqui na capital. Mas não teria como listar tudo de bom que essa cidade proporciona aos seus filhos.
É a Nova Iorque que merecemos, alguns dizem; outros, que é a irmã gêmea de Montevidéu ou, ainda, que é uma mini-Buenos Aires. Não sei. Só posso afirmar com certeza que a cegonha me entregou no endereço certo, pois aqui há lugares que definitivamente fazem parte de mim. O Parque Farroupilha é o melhor exemplo.
Adoro ir para a Redenção e me sentar displicentemente sobre aquela grama verdinha. Tomar um mate gostoso, tirar um cochilo, ver os movimentos, pensar na vida, oh, coisa boa! O aroma da pipoca recém estourada, o som da menina reclamando a atenção do pai, o balé das pernas dos caminhantes, o leve toque da formiguinha a passar pelo meu pé invadem meus sentidos como uma enxurrada.
Basta lá estar para me sentir viva e como que um personagem em um dos capítulos da história do Rio Grande do Sul. Em tempos mais remotos, o parque foi refúgio de escravos, pouso para viajantes, local para práticas esportivas e para acampamentos de carreteiros (alguém ainda sabe o que é isso hoje?). Mais recentemente, foi cenário de filmes marcantes como “Deu pra ti anos 70”, que simbolizou todos os valores de uma talentosíssima geração e tema de um dos grandes clássicos da música porto-alegrense (e mesmo gaúcha, por que não) “Amigo Punk”.
Pessoalmente, desses eventos históricos, o que mais me fascina é que o parque foi palco de uma fantástica exposição alusiva ao centenário da Revolução Farroupilha que, aliás, deu origem à sua atual denominação. Para o evento, realizado nas primeiras décadas do século passado, foram construídas extraordinárias e sólidas edificações especialmente para este fim. Ou seja, após a festividade, pasmem, todos os prédios foram destruídos, à exceção de um, onde acabou sendo alocado posteriormente o Instituto de Educação. Não por acaso é que lá estão as telas “Garibaldi e a Esquadra Farroupilha” de Lucílio de Albuquerque e "A Tomada da Ponte da Azenha" e “Chegada dos Casais Açorianos” de Augusto Luis de Freitas.
A Redenção é lugar para, sozinho ou acompanhado, tomar chimarrão, fazer um piquenique, passear, refletir, viver. Sem contar o romantismo que emana de seus primorosos recantos, cenários para corações enamorados furtarem-se de olhares curiosos. Meu local favorito para estender a manta e ter com meus pensamentos é o laguinho (sei que nem todos compartilham dessa melancolia, em especial, alguns alunos do Colégio Militar). Ali posso espiar os cachorrinhos a se refrescarem, assistir à coreografia das “tartaruguinhas” vindo à tona respirar, além de conferir o entusiasmo dos turistas que se aventuram nos pedalinhos. Eu, particularmente, preferiria que nos abrigos art nouveau houvesse um atracadouro de barcos a remo (coisa que descobri recentemente já ter existido, é, nem tudo muda para melhor). Pena, adoraria poder deslizar calmamente pelas águas turvas do lago como em um cenário das histórias da Srta. Potter...
O Parque Farroupilha demonstra até hoje sua vocação popular. Ele é local dos mais democráticos, verdadeiro misto de tradição (acho o máximo passear pelo entorno e ver aquela placa que diz: “Avenida Setembrina”) e de contra cultura (gosto muito dos grupos de artes circenses que ensaiam ao lado do Araújo Viana). Lá é onde me sinto parte do mundo. Caminhar pelo parque é ver muito mais do que se apresenta aos nossos olhos. É ver quem lá já esteve, é recordar das escaldantes tardes de verão, dos jogos de futebol, das aulas gazeteadas, dos romances à sombra das árvores, das tristezas já olvidadas, é dar oportunidade para projetar o futuro.
P.S.: Vejam só, navegando na internet, descobri um site muito rico em informações, fotos e também pequenos vídeos (tour virtual) da Redenção. Vale a pena dar uma passada lá não só para bairristas como eu, mas também para qualquer um que queria estar em dia com a cultura local sem ter que se aprofundar em pesquisas. Segue o link: www.aredencao.com.br