(Que Audrey Hepburn não me ouça, mas) Vou cortar as minhas unhas. Não por um desejo incontrolável que retumbe em meu ser e sim por uma questão de praticidade. Isso me lembra a manchete de um programa sensacionalista em meados da década de 1990: “Zé do Caixão, depois de muitos anos, finalmente vai cortas suas unhas por orientação médica”. Até hoje não entendi por que unhas gigantescas e retorcidas poderiam prejudicar – diretamente – a saúde de alguém. No meu caso, é mais um impasse, um conflito que me assola: beleza x praticidade.
Depois de anos de cuidados, consegui cultivar garras de dar inveja a qualquer mulher fatal. Mãos pequenas, dedos delicados, formatos arredondados. Tenho desfilado há dias com esses unhões-de-quem-não-pega-numa-vassoura rigorosamente pintados de rosa chiclé. Todo mundo elogiou meu recorde: “Estás com as unhas lindas”. Devo admitir que esse formato surgiu por acaso. Minha queratina sabe-se lá por que resolveu endurecer e as “lâminas córneas que revestem as extremidades dorsais dos meus dedos” pararam de se partir logo que supera o tamanho de um milímetro. Isso, acrescido aos “ouvidos de mercador” de uma manicure nova que não atendeu às minhas instruções, fizeram minhas unhas ficarem muito fortes e ovaladas.
É bem verdade que fica bonito, feminino, delicado, mas tudo tem limite, não demora elas vão começar a se retorcer e se deformar ou até o pior: quebrar “na carne”. Outro problema: não consigo usar o computador direito, os dedos médio e anelar não chegam mais no “i” e no “o” como antes, as formosas unhas – feitas para enfeitar e outros usos que não fazem parte dos meus hábitos – involuntariamente acabam batendo em teclas vizinhas e me fazendo perder o tempo de que não disponho. E não é só isso. Minha casa também está reclamando. Quem é que tem coragem de pegar na esponja e no detergente líquido com tamanhas garras? Estragar o esmalte nunca! E cozinhar? Imagine abrir a porta do forno e deixar metade da unha ou, não raro, do dedo?
De pensar que, na adolescência, fora um grande sacrifício deixar de roê-las. Depois, outro grande, que se estendeu por anos, de fazê-las crescer sem rasgar, é, de tão moles que eram. Tirar as cutículas, então, foi como perder a virgindade para uma donzela, empresa somente possível apenas pelas mãos de uma profissional zen budista que conheci. O medo de me tirarem um bife então. Assombrou-me por muitos anos. O próximo passo foi aceitar os tons vermelhos, só permitidos para, rarram, mulheres mesmo. Isso já demorou mais, digamos. Mas hoje me deixo levar até pelos lilases.
É uma decisão difícil essa. Ter unhas compridas significa poder. É um instrumento de sedução. Unhas curtas remetem à fragilidade da infância e mulher quer se sentir forte e absoluta. Mulher que se preze – desde as mais despreocupadas com os fatos da vida até as grandes acadêmicas – não sai de casa sem uma boa manicure. Se sai, antes que qualquer um note a cutícula gritando “olha-eu-aqui” ou o esmalte lascado (ou a falta dele), já sai avisando que precisa arranjar tempo para fazer a mão.
E fomos felizes, não é, minhas garrinhas? Agora, entre idas e vindas, unhas curtas e compridas, quadradas e arredondadas, vermelhas e ao natural, passando pelas marrons e pelas francesinhas, vou cortá-las. Assim que tiver coragem ou elas decidirem por si, o que ocorrer primeiro. Mas, decididamente, há unhas que vão continuar crescendo: as da audácia. Essas sim me fazem a mulher que sou e a elas não renuncio.
Depois de anos de cuidados, consegui cultivar garras de dar inveja a qualquer mulher fatal. Mãos pequenas, dedos delicados, formatos arredondados. Tenho desfilado há dias com esses unhões-de-quem-não-pega-numa-vassoura rigorosamente pintados de rosa chiclé. Todo mundo elogiou meu recorde: “Estás com as unhas lindas”. Devo admitir que esse formato surgiu por acaso. Minha queratina sabe-se lá por que resolveu endurecer e as “lâminas córneas que revestem as extremidades dorsais dos meus dedos” pararam de se partir logo que supera o tamanho de um milímetro. Isso, acrescido aos “ouvidos de mercador” de uma manicure nova que não atendeu às minhas instruções, fizeram minhas unhas ficarem muito fortes e ovaladas.
É bem verdade que fica bonito, feminino, delicado, mas tudo tem limite, não demora elas vão começar a se retorcer e se deformar ou até o pior: quebrar “na carne”. Outro problema: não consigo usar o computador direito, os dedos médio e anelar não chegam mais no “i” e no “o” como antes, as formosas unhas – feitas para enfeitar e outros usos que não fazem parte dos meus hábitos – involuntariamente acabam batendo em teclas vizinhas e me fazendo perder o tempo de que não disponho. E não é só isso. Minha casa também está reclamando. Quem é que tem coragem de pegar na esponja e no detergente líquido com tamanhas garras? Estragar o esmalte nunca! E cozinhar? Imagine abrir a porta do forno e deixar metade da unha ou, não raro, do dedo?
De pensar que, na adolescência, fora um grande sacrifício deixar de roê-las. Depois, outro grande, que se estendeu por anos, de fazê-las crescer sem rasgar, é, de tão moles que eram. Tirar as cutículas, então, foi como perder a virgindade para uma donzela, empresa somente possível apenas pelas mãos de uma profissional zen budista que conheci. O medo de me tirarem um bife então. Assombrou-me por muitos anos. O próximo passo foi aceitar os tons vermelhos, só permitidos para, rarram, mulheres mesmo. Isso já demorou mais, digamos. Mas hoje me deixo levar até pelos lilases.
É uma decisão difícil essa. Ter unhas compridas significa poder. É um instrumento de sedução. Unhas curtas remetem à fragilidade da infância e mulher quer se sentir forte e absoluta. Mulher que se preze – desde as mais despreocupadas com os fatos da vida até as grandes acadêmicas – não sai de casa sem uma boa manicure. Se sai, antes que qualquer um note a cutícula gritando “olha-eu-aqui” ou o esmalte lascado (ou a falta dele), já sai avisando que precisa arranjar tempo para fazer a mão.
E fomos felizes, não é, minhas garrinhas? Agora, entre idas e vindas, unhas curtas e compridas, quadradas e arredondadas, vermelhas e ao natural, passando pelas marrons e pelas francesinhas, vou cortá-las. Assim que tiver coragem ou elas decidirem por si, o que ocorrer primeiro. Mas, decididamente, há unhas que vão continuar crescendo: as da audácia. Essas sim me fazem a mulher que sou e a elas não renuncio.
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