quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Redenção




Desculpe o clichê, mas Porto Alegre é demais (embora o súper que costumava usar essa tradicional musiquinha como trilha não esteja tão bom assim)! É bem verdade que seria possível ficar um dia inteiro enumerando pequenas (ou mesmo grandes, vá lá) desvantagens de se morar aqui na capital. Mas não teria como listar tudo de bom que essa cidade proporciona aos seus filhos.

É a Nova Iorque que merecemos, alguns dizem; outros, que é a irmã gêmea de Montevidéu ou, ainda, que é uma mini-Buenos Aires. Não sei. Só posso afirmar com certeza que a cegonha me entregou no endereço certo, pois aqui há lugares que definitivamente fazem parte de mim. O Parque Farroupilha é o melhor exemplo.

Adoro ir para a Redenção e me sentar displicentemente sobre aquela grama verdinha. Tomar um mate gostoso, tirar um cochilo, ver os movimentos, pensar na vida, oh, coisa boa! O aroma da pipoca recém estourada, o som da menina reclamando a atenção do pai, o balé das pernas dos caminhantes, o leve toque da formiguinha a passar pelo meu pé invadem meus sentidos como uma enxurrada.

Basta lá estar para me sentir viva e como que um personagem em um dos capítulos da história do Rio Grande do Sul. Em tempos mais remotos, o parque foi refúgio de escravos, pouso para viajantes, local para práticas esportivas e para acampamentos de carreteiros (alguém ainda sabe o que é isso hoje?). Mais recentemente, foi cenário de filmes marcantes como “Deu pra ti anos 70”, que simbolizou todos os valores de uma talentosíssima geração e tema de um dos grandes clássicos da música porto-alegrense (e mesmo gaúcha, por que não) “Amigo Punk”.

Pessoalmente, desses eventos históricos, o que mais me fascina é que o parque foi palco de uma fantástica exposição alusiva ao centenário da Revolução Farroupilha que, aliás, deu origem à sua atual denominação. Para o evento, realizado nas primeiras décadas do século passado, foram construídas extraordinárias e sólidas edificações especialmente para este fim. Ou seja, após a festividade, pasmem, todos os prédios foram destruídos, à exceção de um, onde acabou sendo alocado posteriormente o Instituto de Educação. Não por acaso é que lá estão as telas “Garibaldi e a Esquadra Farroupilha” de Lucílio de Albuquerque e "A Tomada da Ponte da Azenha" e “Chegada dos Casais Açorianos” de Augusto Luis de Freitas.

A Redenção é lugar para, sozinho ou acompanhado, tomar chimarrão, fazer um piquenique, passear, refletir, viver. Sem contar o romantismo que emana de seus primorosos recantos, cenários para corações enamorados furtarem-se de olhares curiosos. Meu local favorito para estender a manta e ter com meus pensamentos é o laguinho (sei que nem todos compartilham dessa melancolia, em especial, alguns alunos do Colégio Militar). Ali posso espiar os cachorrinhos a se refrescarem, assistir à coreografia das “tartaruguinhas” vindo à tona respirar, além de conferir o entusiasmo dos turistas que se aventuram nos pedalinhos. Eu, particularmente, preferiria que nos abrigos art nouveau houvesse um atracadouro de barcos a remo (coisa que descobri recentemente já ter existido, é, nem tudo muda para melhor). Pena, adoraria poder deslizar calmamente pelas águas turvas do lago como em um cenário das histórias da Srta. Potter...

O Parque Farroupilha demonstra até hoje sua vocação popular. Ele é local dos mais democráticos, verdadeiro misto de tradição (acho o máximo passear pelo entorno e ver aquela placa que diz: “Avenida Setembrina”) e de contra cultura (gosto muito dos grupos de artes circenses que ensaiam ao lado do Araújo Viana). Lá é onde me sinto parte do mundo. Caminhar pelo parque é ver muito mais do que se apresenta aos nossos olhos. É ver quem lá já esteve, é recordar das escaldantes tardes de verão, dos jogos de futebol, das aulas gazeteadas, dos romances à sombra das árvores, das tristezas já olvidadas, é dar oportunidade para projetar o futuro.

P.S.: Vejam só, navegando na internet, descobri um site muito rico em informações, fotos e também pequenos vídeos (tour virtual) da Redenção. Vale a pena dar uma passada lá não só para bairristas como eu, mas também para qualquer um que queria estar em dia com a cultura local sem ter que se aprofundar em pesquisas. Segue o link: www.aredencao.com.br

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Impossível Retroceder

Troquei os lençóis da cama.
Mudei as toalhas do banheiro.
Joguei no lixo as tuas roupas.
Rasguei as nossas fotos.
Queimei os teus incensos favoritos.
Tomei a última dose de uísque.
Excluí as tuas mensagens.
Apaguei o teu telefone da minha agenda.
Esqueci o teu nome.
Deixei de existir.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Terça-feira Gorda em Porto Alegre

Quem olha pela janela, não acredita que este porto seja alegre. Calçadas desertas, restaurantes fechados, trânsito inexistente. Os poucos automóveis soltos às ruas parecem se mover sozinhos à procura dos seus donos.

O rio permanece muito quieto. Não há barcos, nem pássaros. A brisa sopra nos cabelos de ninguém. Silêncio quase absoluto, só quebrado pelo som de um alarme ao longe que ressoa sem que haja alguém para ouvi-lo. É a desconhecida solidão de um feriado.

O vazio das ruas dá medo. Onde está todo mundo? A folia de uns, é o inferno de outros. Nesse lugar, que pulsa nos demais dias do ano, que emana alegria, que nunca dorme, nesses dias, vegeta. Aos fiéis cidadãos porto-alegrenses, àqueles que não se deixaram levar ou pela sedução das noites nem tão frescas do litoral, ou pela alegria dos salões de bailes do interior ou pelas tradicionais reuniões familiares, só resta caminhar sem rumo pelo deserto de concreto.

As pessoas tentam-se encontrar, se esforçam, vestem suas melhores fantasias, colocam suas máscaras e interpretam seus papéis, mas as suas tentativas são infrutíferas. Nem todos querem esse personagem. Os sentimentos no carnaval são voláteis como o próprio feriado e terminam antes mesmo da quarta-feira de cinzas. A única força que sobrevive em meio a este vazio é a luz do céu, das estrelas, refletidas nas águas do rio. Esse mesmo rio que chora sua solidão.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ode às minhas unhas

(Que Audrey Hepburn não me ouça, mas) Vou cortar as minhas unhas. Não por um desejo incontrolável que retumbe em meu ser e sim por uma questão de praticidade. Isso me lembra a manchete de um programa sensacionalista em meados da década de 1990: “Zé do Caixão, depois de muitos anos, finalmente vai cortas suas unhas por orientação médica”. Até hoje não entendi por que unhas gigantescas e retorcidas poderiam prejudicar – diretamente – a saúde de alguém. No meu caso, é mais um impasse, um conflito que me assola: beleza x praticidade.

Depois de anos de cuidados, consegui cultivar garras de dar inveja a qualquer mulher fatal. Mãos pequenas, dedos delicados, formatos arredondados. Tenho desfilado há dias com esses unhões-de-quem-não-pega-numa-vassoura rigorosamente pintados de rosa chiclé. Todo mundo elogiou meu recorde: “Estás com as unhas lindas”. Devo admitir que esse formato surgiu por acaso. Minha queratina sabe-se lá por que resolveu endurecer e as “lâminas córneas que revestem as extremidades dorsais dos meus dedos” pararam de se partir logo que supera o tamanho de um milímetro. Isso, acrescido aos “ouvidos de mercador” de uma manicure nova que não atendeu às minhas instruções, fizeram minhas unhas ficarem muito fortes e ovaladas.

É bem verdade que fica bonito, feminino, delicado, mas tudo tem limite, não demora elas vão começar a se retorcer e se deformar ou até o pior: quebrar “na carne”. Outro problema: não consigo usar o computador direito, os dedos médio e anelar não chegam mais no “i” e no “o” como antes, as formosas unhas – feitas para enfeitar e outros usos que não fazem parte dos meus hábitos – involuntariamente acabam batendo em teclas vizinhas e me fazendo perder o tempo de que não disponho. E não é só isso. Minha casa também está reclamando. Quem é que tem coragem de pegar na esponja e no detergente líquido com tamanhas garras? Estragar o esmalte nunca! E cozinhar? Imagine abrir a porta do forno e deixar metade da unha ou, não raro, do dedo?

De pensar que, na adolescência, fora um grande sacrifício deixar de roê-las. Depois, outro grande, que se estendeu por anos, de fazê-las crescer sem rasgar, é, de tão moles que eram. Tirar as cutículas, então, foi como perder a virgindade para uma donzela, empresa somente possível apenas pelas mãos de uma profissional zen budista que conheci. O medo de me tirarem um bife então. Assombrou-me por muitos anos. O próximo passo foi aceitar os tons vermelhos, só permitidos para, rarram, mulheres mesmo. Isso já demorou mais, digamos. Mas hoje me deixo levar até pelos lilases.

É uma decisão difícil essa. Ter unhas compridas significa poder. É um instrumento de sedução. Unhas curtas remetem à fragilidade da infância e mulher quer se sentir forte e absoluta. Mulher que se preze – desde as mais despreocupadas com os fatos da vida até as grandes acadêmicas – não sai de casa sem uma boa manicure. Se sai, antes que qualquer um note a cutícula gritando “olha-eu-aqui” ou o esmalte lascado (ou a falta dele), já sai avisando que precisa arranjar tempo para fazer a mão.

E fomos felizes, não é, minhas garrinhas? Agora, entre idas e vindas, unhas curtas e compridas, quadradas e arredondadas, vermelhas e ao natural, passando pelas marrons e pelas francesinhas, vou cortá-las. Assim que tiver coragem ou elas decidirem por si, o que ocorrer primeiro. Mas, decididamente, há unhas que vão continuar crescendo: as da audácia. Essas sim me fazem a mulher que sou e a elas não renuncio.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Bailei na Curva


Odeio chegar muito cedo nos lugares. Sou conhecida por isso aliás: a ATRASADA. Já fiz o cúmulo - morram de inveja - de deixar o homem mais lindo do mundo esperando por mim no restaurante por exatos trinta minutos... E ele esperou. Vai ver gostava mesmo de mim. Tenho mais sorte que juízo.

Um dia a gente tem que se emendar. Ontem levei um mudo, mas eloquente xingão da maior dama da cultura do Rio Grande do Sul. Nessa aversão que tenho de "varrer o salão" à espera do início do que quer que seja, cheguei às 21h10min na antessala do (Teatro) São Pedro. Pois é. Não preciso dizer que era somente eu e meia dúzia de funcionários e a Dona Eva a me olhar com um compreensível espanto. Sem mentira nenhuma, senti um daqueles holofotes que exército usa em formaturas militares ser direcionado para mim e ouvi: "o espetáculo já começou (minha filha)". Devem ter pensado: "bah, de onde saiu essa maluca?".

Depois de um longo e constrangedor silêncio, um dos guris do excelente staff do Theatro, não sei se com pena ou surpreso com a minha cara-de-pau, disse-me que eu poderia entrar. O rapaz, que, diga-se de passagem, é uma gracinha, inclusive cedeu-me um lugar na plateia (que estava sobrando, not big deal). E eu serei eternamente agradecida por isso. São nessas horas que um bom decote e um excelente par de pernas fazem a diferença (tem gente que gosta, viu, Paulo Santana). Resultado: sentei em um dos melhores lugares (a meu ver) ao preço módico de vinte reais, só acho que não poderei voltar ao TSP nos próximos meses ou anos, se é que um dia vou poder fazê-lo e encarar a Dona Eva de novo. Ou seja, bailei na curva.

P.S.: ouvir "Horizontes" com a audiência toda cantando junto e assistir finalmente a "Bailei na Curva" foi sensacional (não peguei a montagem original - não deixavam entrar bebês nos teatros em 1982 - nem a "comemorativa" de meados da década de 1990, snif, Marcos Breda). Acho que consegui entender melhor o que passava na cabeça dessa geração "Deu pra ti anos 70", agora na visão do gatinho do Júlio Conte e não na cinematográfica do Gerbase, do Giba e do Werner. Pra ver que, para contar uma boa história, não precisa de grandes cenários, nem de leituras de textos clássicos. Menos é mais mesmo. E nada como o centro à noite! Hoje vou na CCMQ ver "Dez (Quase) Amores", mas tenho que chegar antes para pegar um lugar decente, rôuli crápi...