terça-feira, 23 de março de 2010

Antes só que solteira desesperada.

Uma das partes mais constrangedoras de um casamento para uma jovem solteira é aquele momento após o jantar em que o mestre de cerimônias pega o microfone e anuncia: atenção, moças, a noiva vai atirar o buquê! Em tempos de relações sem compromisso, admitir que se queira casar é, no mínimo, sinal de coragem. Deixar transparecer que não se quer fazê-lo diante de olhos tão reprovadores, então, é praticamente suicídio. De qualquer sorte, independentemente do que se pensa sobre monogamia, difícil mesmo é se recusar à humilhação pública sem ofender os anfitriões que estão sim declarando publicamente sua crença nos tradicionais valores do matrimônio.

Opiniões à parte, de todos os ritos de passagem por mim conhecidos, o casamento era o que costumava me ser mais divertido. Sempre gostei dos preparativos, de reservar a roupa para a ocasião, de admirar a decoração da igreja, da marcha nupcial, da entrada dos padrinhos, das gafes dos pajens e das aias (momento de grande diversão geralmente), do nervosismo do noivo pelos atrasos na chegada da futura esposa, da emoção das mães, do olhar muitas vezes sisudo do pai da noiva, do beijo do novo casal, da hora de atirar o arroz (e das quedas dignas de gargalhadas que inevitavelmente acontecem), do ritual das fotos em meio à comilança que sucede à cerimônia.

Não posso esquecer jamais daquele muito recatado padre careca (estilo Esperidião Amim) que determinava que, na sua igreja, ao final da cerimônia, o noivo só poderia dar um inocente selinho na testa da moça. E aquele casal entusiasmado cujo beijo estalado ecoou pela capela, chocando os mais pudicos que não se contiveram e proferiram um sonoro “oh”? Digno de nota também aquele casamento em que as madrinhas, todas, sob o pretexto de grande emoção, tiveram que abandonar seus postos no altar por causa do calor assolador antes que desmaiassem e roubassem a cena dos protagonistas.

Até a adolescência, os casamentos eram a festa por excelência. E isso que não havia todos esses adereços coloridos que hoje se colocam à disposição dos convidados para dar à comemoração ares de balada. Porém, esse sentimento transformou-se em tortura na primeira vez em que fui compelida a me juntar às moças casadoiras na espera pelo buquê da noiva. O que antes me era proibido e que parecia divertidíssimo (sempre soube que as crianças sabiam ser cruéis, agora tenho certeza), passou a ser o supra-sumo da humilhação.

E quem diabos quer saber quem vai ser a próxima a se casar? Será que ninguém vê o drama dos namorados totalmente aterrorizados com a disputa de suas caras-metades pelo souvenir? Não bastasse ter que me amontoar com outras solteiras (e muitas conhecidas desesperadas para arranjar marido) ter que me esgueirar para pegar o tal buquê (que muitas vezes nem é aquele que a noiva carregou para o altar e sim um macinho sem graça de flores do campo feito “especialmente” para o momento) e correr o risco receber a pecha de solteirona era literalmente o fim.

Certa vez, já mais acostumada com o ritual e conformada, digamos, com a tradição, cheguei a pensar que ia ser a premiada da noite, mas vi o buquê, que havia sido mirado diretamente para mim, sair em slow motion das mãos da noiva, bater na viga do salão, descer quase à minha altura e passar direto por sobre a minha cabeça direto para as munhecas de uma garotinha pré-adolescente que, com muita alegria, levantou o troféu a comemorar a façanha. Não preciso nem dizer que, passados quase dez anos, a menina, hoje uma mulher feita e que, em tese, seria a próxima a casar, ainda não contraiu matrimônio. A sabedoria popular não mente.

Minha última experiência no que toca a pegar buquês foi pior. Dessa vez, apesar de sequer erguer os braços para apanhar o arremesso, de fato o prêmio tão desejado por muitas parou certinho em minhas mãos. Inacreditável. Há testemunhas disso. Mas o destino não podia deixar por menos. O problema é que o mesmo também se deu com a solteira do lado que, ao que parecia, cobiçava o buquê mais que eu.

Apesar da vontade de me livrar da nódoa de perdedora, não fiz o menor esforço para agarrá-lo. Não peguei um botão de rosa sequer, deixei o prêmio para a graciosa moça de dezesseis anos. Afinal, além de ser recompensada com uma nova fama, a de caridosa, não pegar o buquê fez com que a obrigação de ser a próxima a casar passasse longe de mim. Ufa, foi por pouco!